O Departamento de Defesa dos Estados Unidos quer gastar US$ 30,3 milhões nos próximos cinco anos para desenvolver uma versão aprimorada do detector de mentiras. O pedido consta de um documento orçamentário do Pentágono e foi noticiado inicialmente pelo Inside Defense, segundo reportagem da MIT Technology Review publicada em 25 de setembro de 2026.
O programa, batizado de Polygraph+ ou Polygraph Next, aposta em algoritmos de pontuação baseados em inteligência artificial e aprendizado de máquina, além de uma técnica conhecida como standoff sensing.
Um programa de cinco anos sob o guarda-chuva da dcsa
De acordo com o documento orçamentário, o projeto pretende modernizar as tecnologias federais de polígrafo e de avaliação de credibilidade. O foco é melhorar precisão e confiabilidade.
A execução ficaria a cargo da Defense Counterintelligence and Security Agency (DCSA), órgão responsável por conduzir verificações de antecedentes para o governo federal. Os usos previstos incluem a triagem de candidatos a emprego e a detecção de ameaças internas.
O orçamento ainda não foi aprovado pelo Congresso. A DCSA não respondeu a um pedido de mais informações.
Sensores à distância e algoritmos de IA
O standoff sensing se refere à capacidade de obter leituras fisiológicas sem prender nenhum dispositivo ao corpo do entrevistado. Outros esforços do Pentágono dão pistas sobre o que pode ser usado.
Em 2023, a Defense Innovation Unit (DIU) abriu um processo de submissão pública para encontrar empresas com produtos aplicáveis à detecção de engano. Selecionou duas para construir protótipos: a Presage Technologies, que afirma medir frequência cardíaca e frequência respiratória com câmeras comuns, e a Altec Research, empresa de sensores médicos que agora avança em tecnologias de sensoriamento sem contato.
Uma imagem do protótipo da Altec divulgada pela DIU mostra o rastreamento de movimento da cabeça, temperatura da pele facial e atividade dos poros. Presage e Altec não responderam a pedidos de comentário, e a DIU preferiu não se manifestar.
Um histórico de promessas não cumpridas
A tecnologia atual de detecção de mentiras mudou pouco desde que o polígrafo foi inventado na década de 1920. Examinadores medem pressão arterial, pulso, respiração e suor, e julgam a veracidade das respostas a partir da diferença entre reações a perguntas de base, como se o céu é azul, e perguntas-alvo.
O governo federal realiza dezenas de milhares desses testes por ano na triagem de funcionários. A confiabilidade da técnica é questionada há décadas e seus resultados raramente são aceitos em tribunais.
Em 1983, o Office of Technology Assessment do Congresso concluiu que havia evidência muito limitada para sustentar o uso do polígrafo na seleção de pessoal. Em 2003, o National Research Council dos EUA afirmou que as evidências de eficácia eram fracas na melhor das hipóteses.
Pesquisas indicam que humanos identificam uma mentira pouco mais da metade das vezes sem qualquer auxílio técnico. A American Polygraph Association afirma que o polígrafo acerta entre 80% e 94% das vezes, mas o relatório de 2003 observou que um teste de triagem com esse nível de acurácia ainda produziria muitos erros.
O Departamento de Defesa emprega 2,8 milhões de pessoas, e um sistema imperfeito aplicado nessa escala poderia acusar falsamente dezenas de milhares delas.
Há outros problemas. As interpretações do polígrafo costumam ser subjetivas, com examinadores diferentes chegando a resultados bastante distintos, e pessoas de grupos minoritários têm mais chance de serem julgadas como mentirosas.
Com treinamento, também é possível aprender contramedidas, como pisar em um alfinete escondido no sapato para elevar artificialmente a resposta fisiológica às perguntas de base.
Sophie van der Zee, professora associada que estuda engano na Erasmus University Rotterdam, afirma que quem conhece o funcionamento consegue vencer o teste. Para ela, o maior efeito da máquina é a dissuasão, já que muitos entrevistados confessam antes mesmo de o exame começar.
Isso só funciona enquanto as pessoas acreditarem que o polígrafo funciona.
Kyri Kotsoglou, pesquisador de direito da Northumbria University, no Reino Unido, que estuda o uso de polígrafos no sistema de justiça, classifica a iniciativa como um esforço equivocado de reduzir algo complexo a algo tangível.
Tensão interna e caça a vazamentos
O pedido orçamentário surge em um momento de alta tensão dentro do departamento. Sob o secretário de Defesa Pete Hegseth, o Pentágono tem recorrido cada vez mais a testes de polígrafo para tentar identificar as fontes de supostos vazamentos à imprensa.
Em setembro de 2026, o New York Times noticiou que cerca de 50 oficiais do Estado-Maior Conjunto foram submetidos a exames depois de reportagens sobre o esgotamento dos estoques de armas dos EUA na guerra com o Irã.
Ainda não está claro quais tecnologias específicas serão adotadas pelo Polygraph+. O histórico de tentativas frustradas de automatizar a detecção de mentiras sugere que a promessa de maior precisão precisa ser recebida com cautela.
Fontes e links
- MIT Technology Review
- Department of Defense budget request
- DIU: Polygraph effort
- National Research Council, 2003







