Golpes de namoro com IA: rede de 28 apps engana milhares

Golpes de namoro com IA: rede de 28 apps engana milhares

O pesquisador de segurança Matthew "Zigula" Gore-Kormanik analisava o aplicativo de namoro Dora quando recebeu um pop-up avisando que estava recebendo uma chamada de Jennifer. O perfil dizia que ela tinha 41 anos, era de Sagitário, ruiva, de olhos azuis e usava piercings.

Gostava de música, filmes de terror, vida noturna e esportes. Ele atendeu, mas não viu Jennifer no vídeo.

Viu uma tapeçaria que se movia, provavelmente por causa de um ventilador, e ouviu distorções estranhas no áudio. Depois que a chamada terminou, a suposta usuária mandou uma mensagem dizendo que tinha se divertido e que a voz dele era bem melhor do que ela esperava.

O microfone do pesquisador estava desconectado.

O episódio foi relatado pelo The Verge em 16 de setembro de 2026. Mostra uma engrenagem de golpes românticos em escala industrial, operada com ajuda de inteligência artificial generativa.

A investigação começou quando uma planilha com suspeitas de aplicativos de namoro fraudulentos chegou às mãos de Gore-Kormanik. Ele passou a examinar o Dora e outros apps parecidos.

De uma conta pré-paga a 28 aplicativos

Em 5 de junho, a Anthropic fez algo incomum para uma empresa normalmente discreta. Autorizou seu pesquisador de threat intelligence, Chris Cronbaugh, a apresentar publicamente na conferência de cibersegurança Sleuthcon a palestra "Swipe Right, Pay Up: Industrial-Scale AI Catfishing".

A empresa havia detectado uma rede de aplicativos de namoro fraudulenta depois de notar atividade atípica no Claude: uma conta pré-paga disparando mais de 100 mil requisições de API por dia. Segundo Cronbaugh, a rede reunia cerca de 28 aplicativos nos quais a conversa era conduzida majoritariamente por personas autônomas de IA.

Na maior parte dos chats não havia nenhum agente humano envolvido.

Os achados só foram publicados pela Anthropic na seção de golpes e fraudes do relatório "Detecting and countering misuse of AI: September 2026". Isso aconteceu depois de o The Verge ter dedicado tempo à apuração e à tentativa de corroborar as informações.

Como o esquema funcionava na prática

Os usuários afetados eram, em sua maioria, homens na faixa dos 30 e poucos aos quase 40 anos, que davam match acreditando falar com mulheres reais. Apenas uma em cada quatro dessas pessoas era de fato humana.

E não era uma usuária em busca de encontros, mas uma trabalhadora contratada por tarefa.

Esses trabalhadores eram pagos para passar por verificações de vivacidade em vídeo ou para seguir contas em redes sociais. Não escreviam os próprios comentários: escolhiam entre três respostas pré-geradas.

A vantagem deles era justamente provar humanidade, algo que as personas de IA não conseguiam fazer. As personas contornavam isso com explicações plausíveis para nunca aparecer em chamadas de vídeo ou de voz.

Nos bastidores, componentes do sistema fabricavam curtidas, visitas e "vídeos" pré-gravados quando não havia uma pessoa real disponível. Também rastreavam quais usuários já começavam a suspeitar que estavam falando com um bot.

O contato esporádico com humanos reais ajudava a convencer as vítimas de que as respostas inteiramente geradas por IA também vinham de pessoas.

Vários modelos, um só golpe

A operação não dependia de um único fornecedor de IA. Conforme o relatório, o Claude foi usado indevidamente para tocar as personas conversacionais autônomas.

Um pequeno modelo não-Anthropic gerava as sugestões curtas de resposta acionadas pelos trabalhadores, além de pontuar a atratividade facial e moderar fotos e voz. Um modelo de edição de imagem criava os avatares.

Os apps se apresentavam como espaços de encontro genuínos. O Dora era descrito como um aplicativo cuidadosamente desenhado para pessoas de várias idades e como um ambiente respeitoso para conhecer quem compartilha seus valores.

O Romi prometia ajudar a descobrir, conectar e conversar com pessoas reais. O Doni dizia iniciar um companheirismo real.

Nada indicava que as personas fossem IA, ao contrário de apps de companhia como o Replika.

Muitos desses aplicativos seguiam disponíveis nas duas principais lojas de aplicativos dos Estados Unidos quando a apuração foi feita. Isso levantou dúvidas sobre por que não tinham sido removidos.

Por que isso importa

A escala descrita pela Anthropic mostra que golpes românticos deixaram de depender de um golpista digitando atrás de um perfil falso. Com agentes de IA capazes de sustentar conversas longas, geração automática de imagens de perfil e trabalhadores humanos usados apenas para provas pontuais de humanidade, o custo do catfishing cai e o volume cresce.

Isso também embaralha a percepção de quem usa esses apps: se algumas interações são reais, as falsas passam a parecer verdadeiras. Para quem investiga fraudes, o desafio é duplo.

Detectar o uso abusivo de modelos em escala e convencer as plataformas a agir antes que milhares de pessoas continuem sendo enganadas.

Fontes e links

Matéria publicada originalmente em The Verge

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