O boom da inteligência artificial está produzindo uma montanha de lixo eletrônico muito maior do que se calculava. Um relatório divulgado em 16 de setembro de 2026 pela organização sem fins lucrativos Basel Action Network (BAN) estima que, até 2050, o e-waste associado à IA pode atingir um volume capaz de encher 23 milhões de contêineres marítimos.
Contêineres de 40 pés alinhados um atrás do outro seriam suficientes para dar cerca de seis voltas ao redor do mundo.
Segundo a entidade, esse total pode ser de 40 a 60 vezes maior do que o apontado por estudos anteriores sobre o tema. A diferença não está apenas no ritmo de crescimento do setor.
Está na forma de contabilizar o problema.
O que entra na conta
Levantamentos anteriores concentravam-se sobretudo em servidores e GPUs. O novo trabalho, disponível em PDF e assinado pela Basel Action Network, amplia o escopo para toda a infraestrutura necessária para manter esses equipamentos operando.
A lista inclui sistemas de alimentação e distribuição de energia, refrigeração, energia de backup e equipamentos de rede.
O documento inclui ainda uma categoria batizada de "AI Waste Contagion", algo como o contágio do lixo da IA. Ela reúne desde a infraestrutura de telecomunicações até dispositivos pessoais que tendem a se tornar obsoletos e ser trocados mais cedo por causa dos avanços da inteligência artificial.
Na prática, o relatório argumenta que o rastro de descarte da IA vai muito além da sala de servidores.
Os números projetados
A BAN projeta que o e-waste global vai triplicar até 2050, chegando a até 211 milhões de toneladas métricas por ano. A organização atribui de 15% a 20% desse total à IA.
Em termos de intensidade, a estimativa é de 70 mil toneladas métricas de lixo eletrônico por gigawatt de capacidade de data center. O relatório cita uma projeção da McKinsey segundo a qual a capacidade total de data centers pode alcançar 219 GW até 2030.
Somando os equipamentos eletrônicos ligados à IA que devem ser aposentados entre 2025 e 2050, a conta chega a algo entre 395 e 617 milhões de toneladas métricas de e-waste até o meio do século. Trata-se de um horizonte de descarte que começa agora e se estende por décadas.
Para onde vai esse lixo
Menos de um quarto das 68,3 milhões de toneladas de e-waste geradas a cada ano no mundo é formalmente coletado e reciclado, segundo dados do Global E-waste Monitor. A maior parte acaba em circuitos informais de coleta, onde a queima ou o enterro dos equipamentos pode expor trabalhadores e o meio ambiente local a materiais tóxicos como chumbo e cromo.
Os Estados Unidos, país com muito mais data centers do que qualquer outro, ainda não ratificaram a Convenção de Basileia, criada para limitar o comércio internacional de resíduos perigosos. Investigações já mostraram que recicladores americanos continuam enviando e-waste para o exterior, onde o material frequentemente entra na chamada reciclagem de quintal.
Milhões de crianças que trabalham ou vivem perto desses locais enfrentam ameaças à saúde, de acordo com a Organização Mundial da Saúde.
Por que isso importa
Jim Puckett, fundador e responsável pela direção estratégica da BAN, afirma em comunicado que o setor de IA pode dar a impressão de ser imaterial. Todo modelo, porém, depende de uma quantidade enorme de hardware altamente especializado e de ponta.
Para ele, se empresas e governos não começarem a planejar o volume de resíduos que está por vir, a expansão atual da IA pode se tornar uma crise de lixo tóxico ainda mais grave do que a que já enfrentamos.
O alerta chega no momento em que a corrida por capacidade computacional se acelera e novos data centers são anunciados em vários países. O relatório da BAN desloca o debate do consumo de energia e água, temas já recorrentes, para o destino final dos equipamentos.
É um custo ambiental que costuma aparecer só anos depois da inauguração das instalações.







