Por que tanta gente odeia a IA e não consegue ficar sem ela

Por que tanta gente odeia a IA e não consegue ficar sem ela

Em 5 de outubro de 2026, a MIT Technology Review publicou uma análise sobre um paradoxo incômodo da tecnologia atual. A inteligência artificial é cada vez mais detestada pelo público e, ao mesmo tempo, cada vez mais usada por ele.

O texto parte de uma conversa do autor com o CEO da Springboards, startup que desenvolve um LLM projetado para oferecer respostas mais variadas do que as dos concorrentes mainstream.

"Costumamos dizer que somos uma empresa de IA que se autodeprecia. Não sabemos se realmente gostamos do que estamos fazendo", afirmou o executivo.

O jornalista respondeu, em tom de piada, que isso o tornaria um jornalista de IA que também se autodeprecia. O desconforto que ele descreve é real e, segundo a reportagem, compartilhado mundo afora.

Aversão crescente, em números

Levantamentos citados na matéria desenham um cenário de desencanto acelerado. Segundo o Pew Research Center, mais adultos nos Estados Unidos acreditam que a IA terá impacto negativo sobre eles pessoalmente e sobre a sociedade do que esperam efeitos positivos.

O pessimismo é mais forte justamente entre os jovens.

Um relatório da Universidade Stanford aponta que mais da metade das pessoas no mundo dizem que produtos e serviços de IA as deixam nervosas.

Em uma pesquisa da Gallup realizada em maio, 71% dos adultos americanos afirmaram que se oporiam à construção de um novo data center de IA na sua região. O percentual é bem superior aos 53% que rejeitariam uma usina nuclear.

Um levantamento da NBC de março mostrou a IA como menos popular que o ICE, o serviço de imigração dos Estados Unidos.

A adoção dispara na direção oposta

A percepção pública piora, e o consumo explode.

O ChatGPT alcançou 1 bilhão de usuários mensais em maio, segundo a firma de análise de mercado Sensor Tower. O Gemini, do Google DeepMind, vinha logo atrás, com 950 milhões de usuários em julho.

O Pew informa que metade dos adultos americanos já usa algum chatbot, mais que o dobro do registrado em 2023. Uma em cada quatro pessoas o faz diariamente.

O hábito é global: mais de um terço dos adultos nos 38 países da OCDE relataram ter usado ferramentas de IA generativa nos três meses anteriores, conforme dados da própria organização.

A reportagem descarta a hipótese de que se trate de dois públicos separados. Os números só fecham, argumenta o autor, se o diagrama de Venn estiver a caminho de virar um círculo.

As mesmas pessoas que reclamam da IA seriam as que a utilizam todos os dias.

Há correlação possível entre uso intenso e opinião negativa. O Norte Global, onde a adoção é maior, concentra o pessimismo.

O Sul Global, com adoção menor, tende ao otimismo.

O alvo do descontentamento não é o modelo

A tese central da análise é outra.

Quando as pessoas dizem que odeiam IA, elas não estariam rejeitando a tecnologia em si. Elas rejeitariam a pressão incessante das empresas que a produzem para inseri-la em todos os contextos possíveis, movidas por hype e por promessas de que a sociedade deve se preparar para a maior transformação econômica e social em gerações.

O texto lembra que dinâmica parecida já ocorreu com as redes sociais nas últimas duas décadas. Bilhões de pessoas aderiram ao Facebook e ao Twitter mesmo com a rejeição crescente às empresas que operavam essas plataformas.

A diferença é que, no caso das redes, sair significava perder conteúdo e conexões. Com a IA, avalia o autor, ainda há espaço para alguma influência do público.

Regulação e escolha

Esse espaço aparece em dois fronts.

O primeiro é político: todos os 50 estados americanos já aprovaram ou propuseram leis que regulam o desenvolvimento e a implantação de IA. O conjunto soma mais de 2.100 projetos.

Segundo o levantamento AI Laws by State, houve aumento de dez vezes em três anos.

O segundo é de mercado: já existem alternativas open source de alto nível às ofertas de Google, OpenAI e Anthropic. Isso, ao menos por enquanto, abre margem para mais escolha do consumidor e para a pressão competitiva que vem com ela.

O autor evita o otimismo ingênuo: empresas avaliadas em trilhões de dólares são difíceis de mover. Mas insiste que o que vem a seguir não é tão inevitável quanto essas companhias costumam sugerir.

Questionado sobre por que desenvolvia um novo modelo se não gostava muito de IA, o CEO da Springboards respondeu que não há como voltar atrás dos LLMs, mas que ainda é possível fazê-los funcionar de maneira diferente.

A expectativa registrada no texto é ver mais dessa diferença: uma IA clara sobre o que pode e o que não pode fazer e que, sobretudo, não posicione como se estivesse prestes a dominar o mundo.

Fontes e links

Matéria publicada originalmente em MIT Technology Review

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