Um robô branco, de cabeça e torso negros, aparece dançando, servindo pipoca, jogando lixo na lixeira, aspirando o chão ou apertando o botão do micro-ondas. Em outros vídeos, o mesmo robô tomba para trás ao tentar entregar garrafas de água e se atrapalha para passar uma camisa.
Esse é o Optimus, da Tesla, um humanoide movido por IA que o CEO Elon Musk descreve como potencialmente "o maior produto da Tesla, mas provavelmente o maior produto de todos os tempos". Em julho, ele disse a acionistas que a máquina "terá destreza humana e depois sobre-humana" e defendeu que esses robôs poderiam automatizar quase todo o trabalho humano, de carregar chapas de metal a dobrar roupa, por cerca de US$ 20 mil cada.
No Fórum Econômico Mundial de Davos, em janeiro, previu que eles poderiam estar à venda ao público até o fim de 2027.
O que prometem musk e companhia
O entusiasmo não é exclusividade do CEO da Tesla. Marc Andreessen, cofundador da Andreessen Horowitz, afirmou que a robótica pode se tornar "a maior indústria da história do planeta".
Em janeiro, Jensen Huang, CEO da NVIDIA, disse que os robôs humanoides alcançariam capacidade equivalente à humana ainda neste ano. Já a Morgan Stanley projeta que o número de robôs que "se parecem e agem como humanos" chegue a quase 1 bilhão até 2050, criando um mercado superior a US$ 5 trilhões.
Por trás dessas projeções está a aposta de que os mesmos avanços de IA que viabilizaram ferramentas como o ChatGPT, da OpenAI, e o Claude, da Anthropic, permitirão a uma nova geração de máquinas imitar o movimento humano tal como os chatbots imitam a linguagem.
O ceticismo dos pesquisadores
Boa parte da comunidade de robótica não compartilha dessa confiança. "Nenhuma dessas empresas — absolutamente nenhuma delas, tem ideia de como tornar esses robôs inteligentes o suficiente para serem úteis", afirmou Yann LeCun, frequentemente citado como um dos padrinhos da IA, em outro evento durante o mesmo encontro de Davos, em janeiro.
Pesquisadores também alertam que confundir robôs feitos para parecer pessoas com máquinas generalistas, capazes de aprender e executar múltiplas tarefas, é enganoso. "É muito fácil fazer um robô que se parece com uma pessoa", explica Jonathan Hurst, cofundador e chief robot officer da Agility Robotics e professor de robótica na Universidade Estadual do Oregon.
"É dramaticamente mais difícil fazer uma máquina que se move ou se comporta de forma dinâmica ou física como uma pessoa."
Onde a pesquisa avança de verdade
Um dos cérebros robóticos mais avançados em operação hoje pode ser visto em um equipamento chamado ALOHA 2, sigla de "A Low-cost Open-source Hardware System for Bimanual Teleoperation". Não há nada de humanoide nele: são apenas um par de braços, alguns grippers e duas câmeras.
Ainda assim, o conjunto é o cavalo de batalha dos pesquisadores do Google DeepMind, que o usam para testar o Gemini Robotics, seu sistema de IA mais avançado para robótica. Sob esse controle, o ALOHA 2 se aproxima de uma máquina generalista, executando tarefas variadas a partir de exemplos com os quais foi treinado: em um vídeo da demonstração, ele usa dois grippers em pinça para colocar delicadamente uma fatia de pão branco dentro de um saco plástico, fechá-lo, acomodar um cacho de uvas em um pote e tampar o recipiente antes de arrumar tudo em uma lancheira.
Por que isso importa
Cerca de uma década atrás, uma sequência de avanços deu origem à revolução da IA generativa e transformou em realidade uma possibilidade imaginada por muito tempo. Pesquisadores de robótica, ainda que discordem sobre quando isso ocorrerá, acreditam que uma revolução igualmente transformadora é possível na área, uma que dote as máquinas de intuição física e fluidez que hoje estão fora de alcance. À medida que o progresso avança a passos curtos, a questão central é se os mesmos métodos e ferramentas que impulsionaram a IA bastam para chegar lá, ou se será necessário um caminho inteiramente novo.
Enquanto isso, o excesso de expectativa em torno dos prazos obscurece um trabalho árduo, porém relevante, que acontece em laboratórios de todo os Estados Unidos. A reportagem que embasa este texto é uma colaboração entre a MIT Technology Review e a Aventine, fundação de pesquisa sem fins lucrativos que produz e apoia conteúdo sobre como a tecnologia e a ciência estão mudando a forma como vivemos.







