Trump tenta rebatizar a IA como “super inteligência” nos EUA

Trump tenta rebatizar a IA como “super inteligência” nos EUA

Donald Trump tenta transformar o vocabulário da inteligência artificial em arma política. Na última semana, o presidente dos Estados Unidos assinou uma ordem executiva que manda abandonar a sigla "IA" — e a própria expressão "inteligência artificial", nos documentos e comunicações do governo sempre que possível, em favor de "super inteligência".

A medida fecha uma ofensiva retórica iniciada em setembro de 2026, quando, em discurso na Assembleia Geral da ONU, Trump disse que "o uso da palavra artificial faz a inteligência parecer falsa" e prometeu rebatizar a tecnologia. O caso é analisado pelo The Verge em reportagem da editora sênior de tecnologia e políticas Adi Robertson, publicada em 9 de outubro de 2026.

Não é a primeira vez que o presidente aposta no poder das palavras. Sua primeira campanha vitoriosa se apoiou em apelidos como "Little Marco" e "Crooked Hillary", e ele converteu "fake news" de descrição de veículos fraudulentos em pejorativo contra a imprensa em geral.

Agora, tenta a mesma manobra com uma tecnologia que quer acelerar: promove o que chama de "super" e transforma "artificial" em seu mais novo xingamento predileto, chegando a classificar os resistentes como "O INIMIGO".

A guinada veio depois de uma conversa no setor sobre o "ritmo" do desenvolvimento de fronteira, no mês passado. Desde então, Trump passou ao que o The Verge descreve como modo pró-robô: sustenta que os riscos de segurança da IA são exagerados, que as empresas americanas precisam correr mais, inclusive erguendo mais data centers, que ele garante que serão "muito populares", contrariando pesquisas de opinião, e desestimula a autorregulação da indústria.

Uma ordem executiva contra a sigla

Na quinta-feira, o presidente declarou em publicação no Truth Social que "a Casa Branca considera INIMIGO qualquer pessoa que use o termo 'inteligência artificial', em vez do novo e mais preciso termo, altamente aceito, 'super inteligência'". O tom acompanha a ordem executiva da semana anterior, que na prática proíbe a sigla "IA" onde for possível, e o discurso na ONU, em que o rebatismo foi anunciado pela primeira vez.

De caisi a caissi: o efeito cascata

As mudanças vieram rápido. O Centro de Padrões e Inovação em IA dos Estados Unidos, o CAISI, que já era um rebatismo do Instituto de Segurança de IA,, virou Centro para o Avanço da Inovação e Padrões para a Super Inteligência (CAISSI, na sigla em inglês).

Comunicados do Departamento de Justiça foram alterados para incluir a expressão: um homem que inundou plataformas de streaming com músicas geradas por IA entre 2017 e 2024 foi apresentado como autor de "fraude de streaming musical assistida por super inteligência" e condenado a 18 meses de prisão.

Big tech embarca no novo vocabulário

Os mesmos nomes da tecnologia que correram para doar milhões a Trump depois da eleição aderiram depressa. Elon Musk, chamado pelo presidente de "primeiro amigo", prometeu renomear a SpaceXAI como SpaceXSI.

Jeff Bezos disse gostar da mudança porque "artificial não é uma coisa muito lisonjeira", e aproveitou para afirmar que a IA poderia viabilizar semanas de trabalho de três dias e famílias com uma única renda. Jensen Huang, da NVIDIA, que foi chamado ao palco por Trump no mês passado para ouvi-lo dizer que "os robôs não vão assumir o controle", também adotou o termo.

Por que isso importa

A aposta, porém, é linguisticamente arriscada. "Artificial" está entranhado no vocabulário técnico, acadêmico, jornalístico e comercial há décadas, e nenhuma ordem executiva reescreve sozinha o modo como as pessoas falam.

O próprio The Verge observa que Trump escolheu uma batalha difícil e que o resultado pode não ser o que a Casa Branca espera. Enquanto isso, as pesquisas sobre data centers seguem apontando resistência da população, contra a versão presidencial de que as instalações serão "muito populares".

A reportagem integra a série "The AI Superintelligence Slowdown", dedicada ao debate sobre segurança e ritmo do desenvolvimento da inteligência artificial. O episódio mostra como uma disputa de nomenclatura pode se espalhar de discursos e publicações em redes sociais para siglas de órgãos públicos, comunicados oficiais e até para a linguagem usada por empresas acusadas de fraude.

Para o setor, o episódio também serve de termômetro: nomes que até pouco tempo evitavam se posicionar sobre regulação agora alinham o vocabulário em poucos dias, enquanto a desconfiança do público em relação à tecnologia permanece no centro do debate.

Fontes e links

Matéria publicada originalmente em The Verge

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