Cloudflare quer cobrar bots de IA e redefinir a economia da web

Cloudflare quer cobrar bots de IA e redefinir a economia da web

Em entrevista ao podcast Decoder, do The Verge, publicada em 26 de setembro de 2026, o cofundador e CEO da Cloudflare, Matthew Prince, detalhou o plano da empresa para reconstruir o modelo de negócios da internet na era da inteligência artificial. Para ele, a publicidade, que sustentou a web por pelo menos 30 anos, perde sentido quando o principal consumidor de conteúdo é uma máquina.

A saída é cobrar frações de centavo por cada acesso automatizado.

Bots já são maioria e a curva segue subindo

A Cloudflare identificou em junho de 2026 que o tráfego automatizado superou o humano. A previsão inicial, feita em novembro de 2025 no Web Summit, apontava para o segundo semestre de 2027.

Em março de 2026, no South by Southwest, a estimativa já tinha sido antecipada para o primeiro semestre de 2027. Em maio, o cruzamento se confirmou.

A projeção da empresa é que, em cinco anos, o tráfego de bots seja mil vezes maior que o humano. O próprio CEO admite que errou em todas as previsões anteriores.

O problema, diz ele, é quem paga a conta de banda e servidores. Bots não clicam em anúncios.

O protocolo 402 e a volta dos micropagamentos

A aposta da Cloudflare é reativar o protocolo 402, de pagamento obrigatório, criado ainda na primeira versão do Netscape. Em parceria com Coinbase e Stripe, a empresa quer permitir que qualquer site cobre uma fração de centavo por acesso.

Conteúdo considerado valioso, como jornalismo e pesquisa acadêmica, teria preços maiores. Prince compara a música: há 23 anos, a indústria fonográfica valia cerca de US$ 8 bilhões, e o Spotify devolveu aproximadamente US$ 12 bilhões ao ecossistema de criadores no último ano.

Ele cita ainda o Reddit, que, segundo o executivo, recebe de sete a 14 vezes mais dinheiro por token do que o The New York Times em acordos de licenciamento. Prince e a esposa são donos de um jornal local em Park City, Utah.

Ele afirma acreditar que a publicação faturará mais com licenças de IA neste ano do que com publicidade digital.

Google zero e o bloqueio por padrão

A partir de 15 de setembro de 2026, a Cloudflare definiu como padrão o bloqueio do Google para treinamento de IA em todos os clientes gratuitos. O dono do site pode reverter a decisão.

Se o Google não diferenciar o rastreamento de busca do rastreamento para IA, o bloqueio vale para tudo. Prince diz conversar com frequência com Sundar Pichai, CEO do Google, e avalia que a empresa sinalizou mais transparência sobre seu crawler, em parte em resposta a uma decisão do Reino Unido.

Ele também afirma que, com mais de 20% da web passando pela Cloudflare, a ausência desses sites quebraria a árvore de rankings que sustenta a busca.

Dentro da cloudflare: 1.100 demissões

Em maio, a companhia demitiu 1.100 pessoas, cerca de 20% do quadro, hoje entre 4.500 e 5.000 funcionários. Prince organizou o corte a partir do framework de Peter Drucker que divide as funções em builders, sellers e measurers, atingindo principalmente a terceira categoria.

Um caso citado: a equipe de relações com investidores, com cerca de 20 pessoas, levava duas semanas para consolidar números antes do balanço. Com ferramentas de IA, o processo caiu para três minutos.

O número médio de subordinados diretos por gestor também subiu, de algo entre seis e oito para perto de 12, achatando a hierarquia. Ele escreveu sobre a decisão em artigo de opinião no Wall Street Journal e relata ter recebido ameaças de morte.

Por que isso importa

O executivo argumenta que os laboratórios de IA não querem mais do mesmo: querem conhecimento novo, o que ele descreve como preencher os buracos de um queijo suíço gigante. Nesse cenário, mídia hiperlocal, comunidades originais e reportagens exclusivas ganhariam valor, enquanto a contribuição à Wikipedia cai.

Prince lembra que a web encolhia desde 2012 e voltou a crescer em outubro de 2025, com plataformas de vibe coding facilitando a criação de sites. Ele também defende mecanismos de reconhecimento público para quem produz conhecimento, além do pagamento.

Fontes e links

Matéria publicada originalmente em The Verge

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