A Meta está desenvolvendo um novo modelo de óculos inteligentes que dispensa câmeras, segundo apuração publicada pela The Information nesta semana. A informação chega em um momento delicado para a empresa, acusada de vender "óculos de pervertido".
Críticos usam a expressão para descrever os modelos com câmera integrada, vistos como ferramentas de vigilância disfarçadas de acessório de moda.
O novo produto, chamado internamente de Luna, pode ser apresentado já na próxima semana. O anúncio ocorreria durante o Meta Connect, evento anual de hardware e desenvolvedores da companhia realizado em Menlo Park, na Califórnia.
O que o luna traz (e o que não traz)
De acordo com a reportagem, o diferencial do Luna é a ausência do componente mais polêmico: não há câmera. Em vez disso, os óculos vêm equipados com seis microfones embutidos, projetados para permitir que o usuário converse com o chatbot de inteligência artificial da Meta.
Há também um botão na lateral da armação que, quando pressionado, ativa o sistema de IA. Segundo a publicação, o dispositivo se conecta ainda ao Muse, o agente de consumo de IA da empresa.
A ideia é manter a camada de assistente inteligente, função que a Meta considera central para o futuro dos wearables, mas sem o recurso que transformou os óculos da companhia em alvo de críticas.
As fontes ouvidas pelo veículo indicam que o anúncio pode ocorrer no evento da próxima semana. A empresa não confirmou oficialmente o produto.
O TechCrunch procurou a Meta para obter mais informações e não houve retorno até a publicação.
De onde vem a expressão "óculos de pervertido"
Os óculos inteligentes com câmera da Meta tiveram adoção mais bem-sucedida do que a de outros concorrentes que tentaram entrar nesse mercado. O sucesso comercial, porém, veio acompanhado de incômodo.
Parte dos consumidores passou a enxergar os dispositivos como emblemas invasivos de uma sociedade de vigilância fora de controle. Os aparelhos seriam capazes de registrar rostos, conversas e situações alheias sem qualquer aviso claro.
Foi nesse contexto que a acusação de vender "perv glasses" ganhou tração.
O lançamento de uma versão sem câmera pode ser lido como uma tentativa de contornar esse estigma. Ao trocar a captura de imagens por entrada de voz, a Meta parece tentar separar duas coisas que o público passou a associar automaticamente: assistentes de IA vestíveis e vigilância.
Um mercado em crescimento, mas cheio de dúvidas
A indústria de óculos inteligentes cresceu ao longo dos últimos anos, e a Meta se posicionou próxima da liderança entre os fornecedores. Ainda assim, questões sobre usabilidade, custo e privacidade seguem o setor.
Muitos consumidores continuam sem saber como, por que ou se deveriam adotar esses dispositivos no dia a dia.
Do lado financeiro, a aposta é cara. O Reality Labs, divisão responsável pela linha de óculos inteligentes, continua perdendo uma quantidade gigantesca de dinheiro, como revelaram os resultados divulgados em abril.
Cada novo modelo precisa agradar em termos de imagem pública, e também justificar investimentos pesados em pesquisa e desenvolvimento.
O que observar daqui para frente
Se o Luna realmente for apresentado no Meta Connect, a companhia precisará responder a algumas perguntas previsíveis. Como o dispositivo lida com a captação contínua de áudio por seis microfones?
Onde os dados são processados e o que é armazenado? Qual será o preço de um produto que abre mão de um dos principais atrativos técnicos dos modelos anteriores?
Para a Meta, o cálculo é simples na aparência: manter a IA no centro da experiência, retirar o elemento que gera manchetes negativas e verificar se o público aceita o pacote. Resta saber se a ausência de câmera basta para desfazer a associação com vigilância, ou se a desconfiança já se transferiu para o conceito inteiro de óculos conectados.







