Drew Breunig publicou, no repositório dbreunig/nesformer, um emulador funcional do CPU 6502 do Nintendo Entertainment System embutido nos pesos do Qwen3.5-4B. Na prática, ROMs de NES como Super Mario Bros passam a rodar dentro do próprio modelo de linguagem — muito lentamente, admite o autor.
O registro do feito apareceu no blog de Simon Willison em 30 de outubro de 2026, na forma de um link post que aponta para o código no GitHub e para a discussão aberta no Hacker News.
A ideia central é incomum. Em vez de executar o jogo em um emulador tradicional, o comportamento do chip é reproduzido por um modelo de linguagem.
O emulador tradicional é escrito em software e interpretado por uma CPU de verdade. O Qwen3.5-4B tem 4 bilhões de parâmetros e funciona como uma espécie de substrato onde as instruções do processador de 8 bits foram codificadas.
O repositório reúne os pesos e uma interface de linha de comando (CLI) à qual o usuário aponta uma ROM.
De onde veio a ideia
O projeto nasceu de uma inspiração direta: o qwenputer, de Divyansh Agrawal, publicado em divagr.com/blog/qwenputer. Foi a partir desse experimento anterior que Breunig decidiu testar se a mesma técnica poderia ser aplicada a um chip clássico dos videogames.
A pergunta original, revelada em um comentário no Hacker News, era se seria possível emular o chip e a RAM de um NES usando a abordagem baseada em pesos. Hoje isso é feito com FPGAs em consoles como os MISTRs.
A dúvida seguinte era dimensionar o modelo necessário. Também queria verificar se versões menores e mais rápidas conseguiriam operar na velocidade de clock padrão do console.
A resposta veio na prática. Segundo o relato, Breunig decidiu construir o sistema "só pela diversão", aceitando que não fosse rápido.
O objetivo era ter os pesos e uma CLI capaz de rodar uma ROM, mesmo que o resultado final fosse lento demais para uso cotidiano. O autor não apresenta, no material disponível, medições de desempenho ou comparação de velocidade com emuladores convencionais.
Como o projeto foi construído
A construção contou com apoio de um modelo de linguagem como ferramenta de desenvolvimento. Breunig publicou no Hacker News os prompts que usou com o Opus 5.5.
Um deles incluía a instrução para ler o artigo do qwenputer e seu código-fonte. A instrução era explorar a viabilidade de emular o chip e a RAM do NES com a mesma técnica.
O segundo prompt autorizava explicitamente a construção, ainda que o resultado não fosse veloz. A condição era ter os pesos e uma CLI apontável para uma ROM.
Segundo o relato, o Opus 5.5 encontrou e utilizou um conjunto de testes de conformidade para a CPU do NES. Os testes foram publicados há 15 anos por Christopher Pow e estão disponíveis em christopherpow/nes-test-roms.
Esses testes, conhecidos como nestest, são usados para verificar se uma implementação do 6502 se comporta como o hardware original. O detalhe é relevante porque indica que a validação do emulador não se apoiou só em rodar jogos.
Usou referências de verificação do próprio chip.
Por que isso importa
Colocar um emulador dentro de pesos de um modelo é mais do que uma curiosidade técnica. O experimento mostra que redes neurais de tamanho moderado podem armazenar e executar máquinas de estado com regras rígidas.
Isso está distante do uso típico de modelos de linguagem em texto. A escolha do NES não é acidental.
O 6502 é um processador simples, com conjunto de instruções bem documentado e décadas de material de referência. Isso o torna um alvo viável para esse tipo de prova de conceito.
A lentidão relatada funciona como um limite honesto do exercício. Rodar Super Mario Bros "muito devagar" dentro do Qwen não substitui emuladores tradicionais nem sinaliza uma aplicação prática imediata.
O valor está na demonstração. Se um modelo de 4 bilhões de parâmetros consegue reproduzir o comportamento de um chip, abre-se espaço para discutir até que ponto modelos podem incorporar lógica determinística.
A discussão inclui o custo computacional de fazer isso via inferência em vez de código.
O caso também ilustra como ferramentas de geração de código estão sendo usadas para acelerar experimentos do tipo "será que dá?". O modelo atua como assistente de programação e, no fim, como o próprio ambiente de execução.
O repositório está aberto no GitHub para quem quiser inspecionar os pesos e testar as ROMs suportadas.
Fontes e links
- Simon Willison
- Repositório dbreunig/nesformer
- qwenputer, de Divyansh Agrawal
- Discussão no Hacker News







