O Cazaquistão está deixando para trás a fase de planejamento e entrando de vez na etapa de implantação de sua infraestrutura de inteligência artificial. O movimento, que atravessa toda a pilha tecnológica — de data centers a modelos e aplicações,, ganhou forma concreta em um pacote de anúncios divulgado pela NVIDIA em 22 de outubro de 2026, coincidindo com a passagem do fundador e CEO da companhia, Jensen Huang, por Astana.
Na capital, Huang se reuniu com o presidente Kassym-Jomart Tokayev no Palácio Presidencial Akorda e participou de uma conversa pública com o vice-primeiro-ministro Zhaslan Madiyev, que também responde pela pasta de IA e Desenvolvimento Digital, no programa Alem.AI, centro internacional de inteligência artificial do país.
Infraestrutura: 45 mil gpus e um data center em obra
O anúncio mais pesado da agenda foi a assinatura do acordo de investimento da Firebird com o governo cazaque, celebrada no próprio palácio presidencial. A companhia, que construiu sua primeira fábrica de IA na Armênia, obteve licença de exportação dos Estados Unidos para 45 mil GPUs NVIDIA Grace Blackwell destinadas ao país.
A primeira fase, erguida em parceria com a Kazakhtelecom no polo Data Center Valley, já está em construção e tem lançamento comercial previsto para o terceiro trimestre de 2027. Uma segunda fase planejada pode elevar a capacidade potencial da Firebird em território cazaque a aproximadamente 500 megawatts.
A empresa também pretende criar o Firebird Labs Kazakhstan, estrutura dedicada a startups locais, pesquisa e formação de talentos, com financiamento, acesso a capacidade computacional e parcerias de pesquisa. O cofundador e CEO Razmig Hovaghimian acompanhou a cerimônia ao lado de autoridades de governo.
A camada de infraestrutura também avança pelas mãos da operadora incumbente. A Kazakhtelecom, maior empresa de telecomunicações do país, já colocou em operação 400 GPUs NVIDIA H200 e 480 GPUs NVIDIA B300 em Astana e Almaty.
Para o próximo ano, a companhia planeja instalar mais de mil GPUs no Data Center Valley e mais de mil GPUs NVIDIA Vera Rubin na região de Ekibastuz, atendendo a cargas de trabalho variadas com infraestrutura que empresas, desenvolvedores e instituições poderão usar em escala.
Soberania linguística e de dados
Boa parte da conversa pública girou em torno do que o país quer construir com essa capacidade. Madiyev defendeu que o Cazaquistão precisa de uma IA que entenda e fale cazaque e que capture contextos e especificidades culturais, mencionando o trabalho em andamento com modelos treinados na língua nacional.
Huang, por sua vez, sugeriu que os recursos energéticos do país podem servir de base para uma nova forma de exportação: em vez de vender apenas energia, o Cazaquistão poderia converter essa energia em inteligência e exportar a inteligência produzida. Ele também argumentou que os dados locais são centrais para essa ambição, porque carregam a cultura, a história e os valores de um povo, e pertencem ao próprio país.
IA física: minas, fábricas e lavoura
O debate avançou para além dos modelos de linguagem. Madiyev apontou fábricas, minas, agricultura, transporte e logística como áreas com potencial para desenvolvimento, e perguntou como o país poderia se tornar um polo de treinamento de modelos para robôs e outros sistemas físicos.
Huang classificou a ideia como excelente e afirmou que a IA física pode transformar setores que vão da mineração e do processamento mineral à agricultura, ajudando as pessoas a fazer mais. Segundo ele, a ambição é o que define o quanto dessa oportunidade será efetivamente aproveitada.
Higgsfield, agentes e o recado aos mais jovens
A agenda incluiu ainda o anúncio de um investimento da NVIDIA na Higgsfield AI, startup fundada no Cazaquistão, cujos fundadores foram elogiados por Huang durante o evento. A empresa está ampliando sua infraestrutura de IA com GPUs NVIDIA Vera Rubin executadas em provedores de serviços de nuvem, ganhando capacidade adicional conforme cresce a demanda por seus aplicativos de mídia generativa.
Questionado sobre segurança, Huang defendeu que a tecnologia seja desenvolvida e implantada de forma responsável e descreveu o OpenShell, solução da NVIDIA para conter agentes de IA limitando seu acesso a arquivos e ferramentas e monitorando sua atividade. Para quem está entrando agora no setor, ele recomendou aprender como a IA funciona, e não apenas como usá-la: entender princípios, forças e fraquezas da tecnologia, combinando conhecimento técnico com a capacidade de trabalhar bem ao lado desses sistemas.
Ele disse invejar quem tem 18 anos hoje, diante de uma profunda reinvenção provocada pela tecnologia.
Por que isso importa
O caso cazaque é um exemplo de como países com vocação energética estão tentando se reposicionar na economia da computação acelerada: em vez de apenas fornecer eletricidade, buscam atrair data centers, formar talentos locais e desenvolver modelos que reflitam sua língua e sua cultura. A combinação de licenças de exportação, obras de infraestrutura com lançamento previsto para 2027 e investimentos em startups mostra que a disputa por capacidade de IA deixou de ser um assunto restrito a Estados Unidos, China e Europa.
Para o Brasil, que também discute soberania de dados e uso de energia para data centers, o roteiro cazaque serve de referência sobre prazos, dependência de fornecedores de GPU e a necessidade de políticas de formação de mão de obra.







