Claude descobre sistema enzimático inédito tipo CRISPR

Claude descobre sistema enzimático inédito tipo CRISPR

Em 7 de outubro de 2026, a Anthropic divulgou os primeiros resultados de um programa de pesquisa em que agentes de inteligência artificial construídos sobre o Claude identificaram de forma autônoma um sistema enzimático inédito, ligado a um conjunto de sequências repetidas de DNA. O achado, que lembra o padrão do CRISPR, saiu de um novo grupo de ciências da vida da empresa, formado na primavera de 2026, que reúne treinamento de modelos em biologia, análise computacional de genomas e um laboratório próprio na região da Baía de São Francisco.

A trajetória da biotecnologia ajuda a dimensionar o interesse. Enzimas de restrição, capazes de cortar DNA em sequências curtas específicas, foram encontradas em sistemas imunológicos de bactérias e deram origem à indústria biotecnológica.

A Taq polimerase, que copia DNA em temperaturas altas, veio de uma bactéria de uma fonte termal de Yellowstone e se tornou a base da PCR, método usado em boa parte dos diagnósticos modernos. O CRISPR começou como uma sequência repetida incomum no DNA de certas bactérias e hoje sustenta medicamentos de edição genética.

Um sistema com repetições associadas a transcriptases reversas

O sistema identificado se apoia em uma transcriptase reversa (RT), enzima que copia RNA em DNA. A RT em questão, encontrada em um fago jumbo (vírus que infecta bactérias), já havia sido descrita em estudos anteriores.

O que a Anthropic afirma ser inédito é o reconhecimento das características que definem o sistema: um arranjo de sequências de DNA não codificantes associado à enzima e uma proteína acessória adicional de função desconhecida. A equipe batizou o conjunto de array-associated reverse transcriptases (ART).

Cerca de 950 agentes e 21 horas de busca

Segundo a empresa, a participação humana se limitou ao comando inicial e ao trabalho de bancada. A partir de um prompt para varrer um banco gigantesco de sequências de DNA em busca de novos exemplos de transcriptases reversas, cerca de 950 agentes percorreram os dados durante 21 horas, consumindo 210 milhões de tokens.

Eles investigaram famílias distintas de RT e usaram o próprio julgamento para selecionar candidatos. Foi um desses agentes que notou um padrão repetitivo de DNA ao lado do gene de uma RT de aparência incomum — pista que, depois de análises adicionais e testes no laboratório, levou à caracterização do sistema ART.

Todo o trabalho experimental foi executado por cientistas humanos, em instalações de níveis de biossegurança BSL-1 e BSL-2, sem manipulação de patógenos capazes de infectar pessoas. Antes de entrar na Anthropic, integrantes do grupo se dedicaram a entender a evolução e a regulação de sistemas CRISPR e a descobrir enzimas para terapias celulares e gênicas de nova geração.

O laboratório faz parte da organização de ciências da vida da empresa, ao lado de times que trabalham com descoberta de fármacos e com treinamento do Claude em biologia e química.

Por que isso importa

Os pesquisadores destacam que as características encontradas juntas no sistema só haviam sido observadas, até agora, em um pequeno conjunto de sistemas programáveis, capazes de cortar, copiar e colar DNA. Além do CRISPR, já consolidado na ciência e na medicina, vários desses sistemas estão em desenvolvimento como ferramentas promissoras.

Feng Zhang, um dos pioneiros da edição genômica por CRISPR e professor do MIT e do Broad Institute, classificou o resultado como um exemplo empolgante de como agentes de IA podem contribuir para a descoberta biológica e disse que a identificação de arranjos de repetições de RNA associados a transcriptases reversas é genuinamente intrigante e merece investigação adicional. A Anthropic também afirma que o episódio reforça a aposta em um modelo de pesquisa em que agentes colaboram com humanos em todas as etapas, ideia defendida em um ensaio sobre aceleração de descobertas científicas.

O que ainda não se sabe

A função primária do sistema ART segue em investigação. A empresa diz que decidiu compartilhar os resultados cedo, tanto para demonstrar capacidades do Claude quanto para dar à comunidade científica uma visão do que está sendo feito.

Os detalhes técnicos foram reunidos em um pre-print divulgado junto com o anúncio, que discute a descoberta de forma mais aprofundada.

Fontes e links

Matéria publicada originalmente em Anthropic

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