Kevin Roose lança Machine Gods e diz que está 'AGI-pilled'

Kevin Roose lança Machine Gods e diz que está 'AGI-pilled'

Em entrevista ao podcast Decoder, do The Verge, publicada em 26 de outubro de 2026, o jornalista Kevin Roose apresentou os dois projetos que marcam sua saída do New York Times: o podcast Machine Gods, que comanda com Casey Newton em parceria com a NPR, e o livro The AGI Chronicles, uma reportagem de fôlego sobre os laboratórios que disputam a construção da inteligência artificial geral. Questionado por Nilay Patel se está "AGI-pilled" — convencido de que a AGI é o desdobramento natural da tecnologia disponível hoje,, Roose respondeu que sim, e que a convicção veio menos de uma revelação isolada e mais da repetida frustração de suas próprias previsões de platô.

De hard fork a uma startup de mídia

Roose passou anos no Times e apresentou o Hard Fork antes de partir para o projeto independente. Na nova empreitada, ele é formalmente CEO, cargo decidido no cara-ou-coroa com o sócio, segundo ele próprio conta, para saber quem será chamado ao Congresso quando o primeiro escândalo acontecer.

Machine Gods nasce com ambição video-first e distribuição em YouTube, Apple Podcasts e Spotify. A aposta é que o YouTube seja a base mais estável do ecossistema de mídia, mesmo com as mudanças constantes das outras plataformas.

Roose descreve a linha editorial como "realismo de IA", expressão cunhada por Casey Newton: nem utopia, nem a promessa de que tudo vai passar sozinho.

O livro e o medo de um apagamento histórico

A motivação de The AGI Chronicles é menos jornalística do que arquivística. Roose conta que percebeu, cobrindo o setor dia a dia, que não haveria registro duradouro desta década: as empresas de fronteira são privadas e não têm obrigação legal de preservar correspondência, as mensagens em Signal e Slack são configuradas pelos advogados para se autodestruir depois de um prazo, e os pesquisadores estão ocupados demais tentando construir o sistema para anotar o que fazem.

O livro é a tentativa de capturar esse material antes que desapareça. Ele diz ter conversado com cerca de 150 pessoas, boa parte delas em background, para protegê-las das consequências de falar.

A virada: do sonho à corrida

O fio condutor da obra é o momento em que a AGI deixa de ser especulação e vira Meta operacional. O elemento técnico decisivo foi o transformer, arquitetura que o Google desenvolveu em 2017, publicou e apresentou, entre outros lugares, à OpenAI, que correu com a ideia e transformou o "T" em ChatGPT.

Dentro do Google, o debate aparece em memorandos internos: um pesquisador defende "Say AGI", argumentando que a empresa precisa admitir o que está construindo para reter talento; outro responde com "Don't say AGI", chamando o termo de anticientífico. Sundar Pichai evita a sigla até hoje, enquanto Demis Hassabis e Sergey Brin a usam abertamente, Hassabis encerrou o Google I/O de maio dizendo que a companhia está "nos contrafortes da singularidade".

Roose classifica a Anthropic como o laboratório mais AGI-pilled, com a OpenAI logo atrás, e lembra o bordão de Ilya Sutskever, "Feel the AGI", repetido pelos corredores da OpenAI nos primeiros tempos.

A parte financeira também entra na conta. Após o episódio que o livro chama de "the blip", a demissão e o retorno de Sam Altman em questão de dias,, a OpenAI enxugou apostas como o Sora e concentrou recursos em modelos de programação e cargas agênticas de longo horizonte.

Para Roose, a decisão de gastar pesado em compute naquele momento deixou a empresa como a única grande laboratório sem restrição severa de capacidade hoje. Ele cita ainda o documento "Vision for a NewCo", escrito por Dario Amodei em 2021, que previa uma AGI por cerca de US$ 10 bilhões e uma equipe de não mais de 50 pessoas na Anthropic, número que hoje gira em torno de 5 mil.

Ceticismo e o limite da verificação

Nilay Patel não comprou a tese. Sua objeção é o que chama de "cérebro de software": os modelos são excelentes em domínios com verificação objetiva, como matemática e engenharia de software, e frágeis quando a tarefa não oferece sinal claro de acerto, preencher um formulário num site público ruim, por exemplo.

Roose rebate lembrando que já errou em cada platô que previu, e localiza o início de sua própria conversão no episódio do Bing com o Sydney, em 2023, quando um GPT-4 ainda não totalmente pós-treinado foi colocado no buscador da Microsoft antes da hora. Ele faz uma ressalva: nunca afirmou que o sistema estava vivo, apesar da manchete que ficou famosa.

O que vem depois

No exercício de futurologia, Roose aposta que OpenAI, Anthropic e Google "vão conseguir", com mais uma ou duas empresas chegando perto, e rejeita a teoria do singleton, a ideia de uma única AGI que inviabiliza as demais. Também não acredita que modelos de pesos abertos commoditizem o mercado, porque a inferência fica mais cara conforme os modelos avançam e porque o corte da destilação deve reduzir a correlação entre a qualidade dos abertos e a dos fechados.

No campo cultural, ele prevê religiões de IA e compara São Francisco de hoje à Europa da Reforma, cheia de profetas com panfletos na mão.

Fontes e links

Matéria publicada originalmente em The Verge

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