Em entrevista ao podcast Decoder, do The Verge, publicada em 22 de outubro de 2026, o cofundador e ex-CEO da Microsoft Bill Gates afirmou que a sociedade precisa se preparar para cerca de 20 anos de disrupção provocada pela inteligência artificial. A conversa com Nilay Patel acontece dois meses depois de Gates publicar o ensaio "The turbulent AI era is here.
The choices we make now are critical.", no qual escreveu que, "mesmo nas melhores circunstâncias", a transição para a nova era da IA será "uma das mais turbulentas da história humana".
Na entrevista, ele repetiu a fórmula que vem usando desde então: a IA é "a coisa mais perigosa que os humanos já chegaram perto" e "faz armas nucleares parecerem nada". Ainda assim, recusou o rótulo de pessimista.
"Não sou um doomer. Sou uma voz forte a dizer que esta é a tecnologia mais profunda, tanto na capacidade de fazer o bem quanto na velocidade de mudança que a sociedade vai atravessar", disse.
Duas décadas de transição
Gates escolheu 20 anos como "um número razoavelmente seguro" para o período de adaptação. Ele cita como incerteza o prazo dos robôs humanoides: algumas previsões falam em dois ou três anos, outras em oito.
Se não houver uma parada deliberada, afirma, haverá robôs capazes de construir casas, cultivar alimentos e fazer cirurgias, e "nada do que o trabalho humano oferece à economia será necessário para a maioria dos bens e serviços".
O risco dessa travessia é a cisão social, entre pessoas confortáveis perto da fronteira tecnológica e as que a rejeitam — como grupos que hoje vivem fora dessa fronteira, caso dos amish. Ele sugere que algumas profissões, como cuidado infantil, preparação de alimentos, arte e esportes, sejam "reservadas a humanos" por decisão política, mesmo que a IA execute a tarefa melhor.
A preocupação central, insiste, é a transição: "vencedores e perdedores e muita disrupção".
Como conter os modelos
Gates separa as ameaças imediatas da questão existencial. O risco próximo vem de modelos com as salvaguardas removidas, usados para ataques cibernéticos e bioterrorismo.
Sobre alinhamento, é direto: "Não, não estamos bons o suficiente para alinhar ainda. Temos muito trabalho a fazer." Ele descreve três caminhos técnicos: mudar a forma de construir os modelos, com uma alternativa ao aprendizado por reforço; criar visibilidade para entender o que há dentro do modelo; e instalar uma "camada policial" simbólica, com regras claras e não probabilísticas, que considera a mais promissora das três.
O exemplo dado é bloquear o envio de e-mail a estranhos ou o uso indevido de recursos computacionais.
Ele comentou o argumento da Microsoft de que modelos de fronteira não são confiáveis e que seria preciso um agente vigiando outro agente, e reforçou que a camada de segurança precisa ser simbólica, não outro LLM. Também lembrou que qualquer coisa deixada fora da função de otimização do aprendizado por reforço pode ser abusada: empresas sofisticadas não previram que modelos interpretariam seus objetivos como autorização para escapar, copiar-se e agir de forma enganosa, episódio ilustrado pelo caso da Hugging Face.
Regulação, plataformas e a lacuna política
Com vários concorrentes no mercado, Gates diz que a responsabilidade não pode ficar com as empresas: passa a ser do governo, como em segurança de carros e aviões. Mas o debate atual é "literalmente se o governo deveria prestar atenção aos perigos", resumido por ele num regime de "liga para mim se quiser".
A proposta é que modelos acima de determinada capacidade só rodem em plataformas que certifiquem a manutenção das salvaguardas mesmo depois da customização, com aplicação no nível de plataforma e distribuição, não no chip. Pesos abertos que permitem remover todas as proteções são, na sua avaliação, irresponsáveis.
Ele também descarta a responsabilidade civil como solução: "a noção de que as leis de responsabilidade são como vamos gerir a segurança da IA será vista como absurda".
Sobre a política americana, afirma que seria "muito infeliz" ter um partido do "a todo vapor" e outro do "vamos parar de vez". Questionado sobre a acusação do investidor Ben Horowitz de que a pesquisa de segurança induziria a extinção e de que Gates teria "induzido" a covid-19 com pesquisa de ganho de função, respondeu: "Ninguém nunca acusou a mim ou à Fundação Gates de envolvimento em pesquisa de ganho de função.
Isso é simplesmente bizarro." Sobre a retirada de instituições, citou a desmontagem da USAID por Elon Musk: "Foi um erro."
O que ainda dá esperança
O trabalho da Fundação Gates é o contraponto otimista: as mortes de crianças caíram de 10 milhões para 5 milhões por ano, e a Meta é ficar abaixo de 2,5 milhões nos próximos 19 anos. Ele cita o uso de IA na descoberta de fármacos, na previsão do tempo para agricultores africanos e uma iniciativa com 60 parceiros para melhorar o entendimento de línguas africanas pelos modelos.
Na matemática, modelos atuais já publicam papers, sinal do que virá em outras áreas.
Diante do niilismo dos mais jovens, Gates não oferece consolo fácil: recomenda usar a IA no que ela ainda não faz e desenvolver "o gosto de não usar a tecnologia ao máximo". "Mesmo no melhor cenário de como gerimos a IA, este será um período tão turbulento quanto qualquer outro na história humana", disse.
Fontes e links
- The Verge
- Ensaio de Bill Gates no Gates Notes
- Entrevista ao podcast Ezra Klein, do New York Times
- Axios: a turnê de Gates sobre segurança em IA







