Rohit Patel, até então diretor do Meta Superintelligence Labs, deixou a Meta depois de oito anos dedicados a pesquisa em inteligência artificial e lançou o Ndoc, startup que ele apresenta como um substituto nativo de IA para o Microsoft Office e o Google Workspace. A informação foi revelada com exclusividade pelo TechCrunch em 27 de outubro de 2026.
A saída de Patel não é um caso isolado. Nos últimos meses, a Meta perdeu nomes de peso como Joel Kaplan, chefe de assuntos globais, o pesquisador de IA Andrew Tulloch e Emily Dalton Smith, responsável por produto de IA para o trabalho.
O movimento indica uma debandada de quadros seniores em um momento de reorganização das apostas da companhia em inteligência artificial.
Um workspace no lugar de cinco ferramentas
A proposta do Ndoc não é ser mais um assistente acoplado a softwares existentes, e sim substituir o fluxo fragmentado que hoje passa por Excel, Word, PowerPoint, Tableau, Replit e o velho copiar-e-colar de respostas do ChatGPT. A plataforma organiza o trabalho em três abas complementares: a Stage, onde ficam as apresentações de resultados, como slides, dashboards, simulações e pequenos aplicativos; a Narrative, que reúne análises, figuras geradas, citações numeradas e a explicação do porquê por trás dos números; e a Model, que abriga os conjuntos de dados e os scripts em Python que sustentam tudo.
O desenho reflete a trajetória de Patel. Na Meta, ele se dedicou a aprendizado por reforço — a técnica em que agentes de IA aprendem por tentativa e erro para maximizar recompensas, e à avaliação da confiabilidade das respostas geradas por modelos.
Sua convicção é simples: se a IA vai produzir planilhas e apresentações que orientam decisões corporativas, alguém precisa conseguir auditar esse trabalho. Por isso, o Ndoc expõe os scripts de Python usados na criação dos documentos, mesmo para quem não programa.
É possível pedir ao chat que explique o que cada trecho faz e em qual linha está determinada fórmula.
Memória por pessoa, documento, time e empresa
Na prática, o usuário envia um conjunto de dados e solicita uma análise, que a ferramenta transforma em um texto explicativo. Também é possível adicionar contexto específico do documento, como público-alvo, tom de voz e memória.
Segundo Patel, o sistema mantém memória em quatro níveis: a pessoa, o documento, o time e a empresa. O objetivo é que colegas consigam abrir e editar o mesmo material, ainda que não tenham conta no Ndoc.
A parte técnica aposta em um caminho diferente dos concorrentes. A plataforma foi construída do zero e ajustada com uma mistura de modelos de código aberto, o que, de acordo com o fundador, reduz bastante o custo de operação em comparação com soluções erguidas sobre modelos de fronteira.
Esse não foi o argumento que mais empolgou os primeiros usuários testados: o que eles destacaram foi ver todo o processo de ponta a ponta concentrado em um único ambiente.
Reinventar o arquivo e abrir o formato
A ambição maior de Patel é mudar a própria ideia de arquivo. Os documentos podem ser exportados como um único arquivo ".ndoc.html", aberto em qualquer navegador, e o formato deve ser liberado como código aberto para que outros desenvolvedores criem aplicativos compatíveis sem ficar presos ao Ndoc, algo que, na avaliação dele, é semelhante ao que Microsoft e Google impuseram ao mercado por anos.
Esse desejo de abrir o formato foi um dos motivos que o levaram a sair da Meta. Em uma empresa grande, convencer centenas de pessoas a concordar com um padrão aberto exigiria costurar muitas opiniões, e Patel queria velocidade. Seu argumento é que equipes humanas avançam em ritmo humano, enquanto ele pretende avançar no ritmo que a IA permite.
A aposta e a concorrência
O desafio é grande: trata-se de um fundador com um time de três pessoas e sem financiamento, tentando se tornar a plataforma onde o trabalho corporativo acontece. A concorrência é formada por laboratórios muito capitalizados.
OpenAI, Anthropic, Meta, SpaceXAI e Google já lançaram ferramentas corporativas capazes de se conectar ao Google Workspace, ao Microsoft 365 e a outros aplicativos de trabalho. Em setembro de 2026, a OpenAI deu um passo além com o lançamento do Space, um workspace compartilhado dentro do ChatGPT que se aproxima justamente dessas ferramentas consolidadas.
O Google, por sua vez, segue expandindo recursos do Gemini em Docs, Sheets, Slides e Drive.
Patel reconhece a dimensão do embate com o Space, mas aposta que a combinação de transparência total sobre os cálculos, formato aberto e ausência de amarras a um único fornecedor pode conquistar equipes cansadas de alternar entre janelas e perder o rastro de como um número foi produzido.
Fontes e links
- TechCrunch
- Ndoc, site oficial
- OpenAI lança o Space, workspace dentro do ChatGPT
- Google leva novos recursos do Gemini para Docs, Sheets, Slides e Drive







