Em 16 de setembro de 2026, o The Verge publicou a resenha de "Odysseus: The Fall", longa de duas horas e meia produzido inteiramente com inteligência artificial. O veredito é duro.
Segundo a crítica, a obra é tão ruim que corre o risco de fazer o espectador detestar a própria história original, justamente quando a Odisseia volta ao centro da conversa cultural.
O filme é da Fountain 0, empresa de IA cujo único trabalho anterior é "Dreams of Violets", longa também gerado por IA que chegou ao festival de Tribeca no início deste ano.
A direção e o roteiro são de Ash Koosha, cofundador da companhia. Ele acumulou outras funções na mesma produção: emprestou a própria imagem ao personagem-título e assinou toda a trilha sonora.
Os créditos finais, segundo a resenha, são bastante curtos. É um retrato de como esse tipo de projeto concentra em pouquíssimas pessoas etapas que, no cinema convencional, mobilizam centenas de profissionais ao longo de meses.
Uma odisseia depois de nolan
O contexto ajuda a entender o tamanho da decepção. A adaptação de "A Odisseia" dirigida por Christopher Nolan dominou as bilheterias e despertou interesse renovado do público por clássicos da literatura.
Era o ambiente propício para uma releitura do épico de Homero encontrar audiência. A produção da Fountain 0 chega na esteira desse sucesso com um resultado que, segundo a crítica, pode ter o efeito contrário: em vez de aproximar novos leitores do texto original, afastá-los dele.
Como o filme foi feito — e o que não se sabe
A matéria da fonte não detalha quais modelos ou ferramentas de geração foram usados. Também não informa orçamento, cronograma de produção ou tamanho da equipe.
O que se sabe é que a Fountain 0 se diz uma firma de IA dedicada a cinema. Seu primeiro trabalho, "Dreams of Violets", conseguiu espaço em Tribeca.
Para uma empresa que constrói sua identidade sobre a promessa de fazer filmes com IA, a ausência de transparência sobre o processo criativo é um ponto sensível. A discussão sobre direitos autorais, uso de obras protegidas e consentimento de imagem segue sem resposta consolidada.
Por que isso importa
O caso interessa muito além da crítica de cinema. A adoção de IA generativa na produção audiovisual avança rápido, e cada lançamento desse tipo funciona como teste público de credibilidade para todo o setor.
Quando um longa inteiramente gerado por IA é recebido como algo que pode arruinar a experiência com um clássico, o efeito recai sobre as ferramentas e os estúdios que tentam posicionar a tecnologia como aliada de roteiristas, animadores e artistas de efeitos.
Há também a dimensão trabalhista. Créditos curtos em um filme de duas horas e meia sugerem um modelo em que poucas funções humanas permanecem.
Imagem do protagonista, música e direção, no caso, estão todas concentradas no mesmo nome.
A duração como sintoma
O próprio título da resenha faz a piada que resume o problema: um filme de 2h30 gerado por IA é 2h30 longo demais.
Duração, nesse caso, não é só uma escolha de edição. É um indicativo de que a obra não encontrou ritmo, tensão nem progressão narrativa capazes de sustentar o tempo de tela.
É uma dificuldade conhecida de produtos longos criados com modelos generativos. Eles tendem a produzir material visualmente coerente em trechos curtos, mas perdem consistência quando precisam manter personagens, cenários e arcos dramáticos por muito tempo.
Sem alguém para cortar, reescrever e hierarquizar o que importa, o resultado vira acúmulo.
O que observar daqui para frente
Fica a pergunta sobre o que esse lançamento representa para a Fountain 0 e para o circuito de festivais que abriu espaço para "Dreams of Violets".
Um longa mal recebido não encerra o debate sobre IA no cinema, mas estabelece um parâmetro: a tecnologia, sozinha, não resolve as questões centrais da linguagem cinematográfica.
A comparação com a adaptação de Nolan, que reacendeu o interesse do público pelo épico, é inevitável e incômoda. A demanda pela Odisseia existe.
O que está em discussão é quem, e com quais meios, será capaz de contá-la de forma que valha duas horas e meia do tempo de alguém.







