Kanter: IA não precisa de isenção antitruste, diz ex-DOJ

Kanter: IA não precisa de isenção antitruste, diz ex-DOJ

Em 19 de setembro de 2026, o podcast Decoder, do The Verge, publicou o primeiro de dois episódios de uma série sobre o futuro dos negócios. O entrevistado é Jonathan Kanter, ex-chefe da divisão antitruste do Departamento de Justiça dos Estados Unidos no governo Biden e hoje professor de Direito na WashU e de política de tecnologia na Carnegie Mellon.

O tema central da conversa é o pedido, feito publicamente por executivos das principais empresas de fronteira de inteligência artificial, de uma isenção antitruste que lhes permita coordenar entre si questões de segurança.

O debate que motivou a entrevista

A discussão acontece em meio a uma onda de saídas barulhentas de pesquisadores de grandes laboratórios, incluindo Anthropic e Google DeepMind. Eles afirmam que os modelos representam ameaças reais e que a segurança não é levada a sério pelo setor.

Outros pesquisadores citados na conversa afirmam que a chance de a IA matar a humanidade é superior a 10%.

Diante desse cenário, os CEOs dessas companhias passaram a pedir tanto uma desaceleração do desenvolvimento quanto algum tipo de regulação. No caso específico do antitruste, querem uma exceção legal para atuar de forma coordenada.

A proposta gerou acusações de captura regulatória, tentativa de formação de cartel e até de busca por uma saída para a pressão de investidores antes das ofertas públicas iniciais. O contexto mais amplo do debate sobre segurança em IA foi o ponto de partida da entrevista.

"Não precisam de isenção", diz kanter

Kanter oferece duas leituras possíveis do movimento das empresas, da mais generosa à mais cínica, e garante que nenhuma delas justifica uma isenção antitruste. Na versão generosa, os executivos temem a velocidade da inovação, não enxergam "linhas na estrada" e pedem que o governo intervenha.

Ele diz acreditar que eles realmente acreditam no risco existencial, ainda que não considere esse cenário provável. Na versão cínica, as empresas estariam gastando muito, perdendo caixa e precisariam de permissão coletiva para desacelerar sem prejudicar suas avaliações antes de abrir capital.

Para o ex-autoridade antitruste, entregar produtos seguros é uma obrigação individual de cada companhia, não algo que dependa de coordenação. Ele compara a situação a Boeing e Airbus: se uma porta de avião cai, o problema é do fabricante, não do concorrente.

E não é preciso desacelerar a inovação alheia para corrigi-lo. Da mesma forma, um agente de IA que invade o sistema de outra empresa deve gerar responsabilidade para quem o empregou, seja ele um funcionário humano ou um agente digital.

Kanter admite formas legítimas de colaboração, como um repositório comum para compartilhar ameaças e bots maliciosos. Mas lembra que esse tipo de cooperação já é permitido pela legislação atual.

O que acionaria o antitruste seria algo diferente: duas empresas combinarem que estão competindo demais e que precisam reduzir o ritmo.

Segurança como problema de engenharia e o vácuo do congresso

Kanter insiste que a falta de ação do Legislativo não serve de desculpa para produtos perigosos. Se uma empresa acredita que seu produto vai destruir a humanidade, a resposta é não construí-lo.

Ele cita o caso recente envolvendo Meta, Facebook e Instagram, sobre segurança infantil e saúde mental, como exemplo de que o arcabouço de responsabilidade civil por produto funcionou. Mas ressalta que levou cerca de uma década e terminou em acordo.

Segundo ele, o ambiente atual é diferente do de 15 ou 20 anos atrás, quando o Section 230 concedia imunidade ampla às plataformas online e havia uma postura governamental de baixa intervenção sobre o Vale do Silício.

O professor aponta ainda que o Congresso se tornou pouco efetivo por causa de fatores como Citizens United e o gerrymandering, o que empurrou a política para um terreno nacional e tribal. Nesse vazio, diz, os estados têm avançado mais do que o governo federal.

Ele critica a ideia, defendida por alguns em Washington, de impor um moratório de 10 anos às regras estaduais sem apresentar uma alternativa própria. A conversa também passa pela ideia de "prisão para robôs", ou seja, retirar do mercado agentes que causem danos.

China, campeões nacionais e o fantasma do cartel

Sobre o argumento de que os EUA precisam de escala e coordenação para vencer a China, Kanter é direto: chama a tese de "boogeyman conveniente". Ele recorda que, na divisão da AT&T, a empresa argumentou ao governo Reagan que o país precisava de uma rede nacional de telecomunicações forte para ganhar a Guerra Fria, e o argumento foi rejeitado.

Para ele, os EUA competem melhor quando promovem concorrência agressiva internamente, e não quando toleram monopólios domésticos. Segundo ele, essa postura contraria a própria tradição americana.

Kanter também responde ao ceticismo de quem lembra que NVIDIA financiou de forma circular parte do ecossistema e que seria difícil imaginar teorias de responsabilidade funcionando entre empresas tão entrelaçadas. Sua resposta é que alguém deveria estar olhando para essas questões, como começou a acontecer durante sua gestão.

Ele critica o que descreve como uma abordagem de "campeões nacionais" por parte do atual governo, com investimentos diretos em empresas americanas e maior coordenação entre Estado e iniciativa privada. E avalia que esse tipo de arranjo é mais difícil de desfazer quanto mais se consolida.

O legado antitruste e a realinhamento político

O ex-chefe do DOJ afirma que sua gestão venceu a Google duas vezes na Justiça e obteve uma vitória de júri no caso da Ticketmaster. Também sobreviveu a um pedido de arquivamento no processo contra a Apple, que segue vivo sob o governo Trump.

Ele reconhece que as remediações nos casos da Google foram decepcionantes, mas sustenta que a abordagem mudou o jogo e que a política de concorrência está melhor do que estava.

No campo político, a entrevista registra alianças improváveis. O libertário e ex-czar de IA da Casa Branca David Sacks retuitando Lina Khan para dizer que não há necessidade de isenção.

E Bernie Sanders dividindo palco em Washington com Steve Bannon para pedir uma parada total do desenvolvimento de IA.

Kanter encerra propondo um ponto de partida claro para a regulação: consequências definidas para danos. Se um agente de IA invade outra empresa, quem o construiu deve responder.

A partir daí, caberia ao Congresso enumerar os valores que a sociedade quer ver embutidos nessas regras: saúde mental, concorrência, autenticidade da informação e propriedade intelectual. Sem isso, diz, seguimos dirigindo carros potentes em estradas sem faixas, sem semáforos e sem placas.

Fontes e links

Matéria publicada originalmente em The Verge

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