OpenAI e Microsoft sabiam de 'doom loop' na web, diz processo

OpenAI e Microsoft sabiam de 'doom loop' na web, diz processo

Documentos judiciais recém-tornados públicos no processo que o The New York Times move contra OpenAI e Microsoft, nos Estados Unidos, revelaram que as próprias empresas avaliaram internamente que estavam dando início a um ciclo destrutivo para a internet. A reportagem do The Verge, publicada em 18 de setembro de 2026, detalha o conteúdo de um documento de 92 páginas apresentado no caso, que também traz declarações de executivos de alto escalão, como Satya Nadella, da Microsoft, e Sam Altman, da OpenAI.

O que os documentos internos dizem

Segundo o material obtido no processo, a documentação das próprias companhias alertava que a operação estava começando um "doom loop" que prejudicaria a web.

O texto caracterizava a raspagem de dados para treinar os modelos como o "maior roubo de trabalho da história humana". Afirmava que a prática faria uma "completa zombaria da ideia de fair use", o uso justo previsto na legislação americana.

Boa parte das passagens mais chamativas vem de Brent Hecht, diretor de ciência aplicada da Microsoft.

O documento também registra a avaliação do chefe do ChatGPT da OpenAI, apontado pela reportagem como provavelmente Nick Turley. Para ele, os publicadores enfrentam uma "ameaça existencial" causada por produtos de IA que são "amplamente substitutivos, ponto".

E que "se tornarão cada vez mais substitutivos à medida que melhorarem".

A petição usa essas admissões para sustentar que a defesa de uso justo das rés fica enfraquecida. A substituição de conteúdo é tratada como o ponto central do direito autoral.

A Microsoft tenta se distanciar das falas

Procurada pelo The Verge, a Microsoft buscou separar a empresa das afirmações. O porta-voz Alex Haurek afirmou que os comentários refletem a perspectiva individual de um funcionário, não constituem análise jurídica e não representam as visões da companhia.

Em outra petição judicial, Jordan Usdan, gerente-geral de estratégia e operações de dados do Microsoft AI, descreveu o papel de Hecht como adversarial. Disse que ele sustenta visões divergentes, acadêmicas e voltadas ao futuro sobre como ecossistemas de dados para IA deveriam funcionar.

E que foi contratado justamente para trazer pontos de vista assimétricos, futuristas e acadêmicos. Não sendo alguém que fale pela Microsoft sobre suas visões teóricas a respeito do efeito potencial da IA sobre criadores de conteúdo.

O 'doom loop' e o Google zero

A expressão usada nos autos descreve um cenário de degradação progressiva. Modelos consomem conteúdo produzido por terceiros, o tráfego que chegaria a sites e veículos cai, e o ecossistema que alimenta esses mesmos modelos perde capacidade de se sustentar.

A reportagem afirma que, independentemente de a Microsoft querer assumir essas falas, a previsão se concretizou. O chamado Google Zero é real e a IA está devorando a web.

O conceito foi discutido em episódio do podcast do The Verge sobre o impacto da IA em publishers.

Para o processo, o ponto sensível é que as empresas teriam documentado internamente os riscos antes de agir. E, ainda assim, seguido adiante.

A acusação sustenta que milhões de artigos protegidos por direito autoral foram copiados integralmente, sem permissão, para produzir produtos comerciais de IA que concorrem com o conteúdo original. As admissões internas, nesse contexto, funcionam como prova de que a substituição era conhecida e esperada.

Por que isso importa

O caso tem peso que vai além das duas empresas. Se as mensagens registradas em documentos internos forem aceitas como evidência de que a substituição de conteúdo era prevista, isso pode alterar o equilíbrio de disputas semelhantes movidas por veículos de imprensa, autores e outros detentores de direitos.

O debate sobre uso justo passa a depender, em parte, do que as próprias desenvolvedoras de IA escreveram sobre o efeito de seus produtos no mercado de conteúdo.

Há também um efeito sobre o desenho da web aberta. Publicadores que perdem tráfego e receita tendem a reduzir investimento em produção jornalística, restringir acesso a dados ou buscar acordos de licenciamento.

Esse movimento altera a base de informação disponível para treinar e operar modelos futuros. É esse encadeamento que os documentos descrevem como um ciclo destrutivo.

A reportagem não indica decisão judicial sobre o mérito nem resultado do processo. O que está em julgamento, por ora, é o significado de um conjunto de registros internos que a acusação apresenta como confissão documental das próprias empresas.

Fontes e links

Matéria publicada originalmente em The Verge

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