Amazon, Microsoft, Alphabet e Meta confirmaram, nas teleconferências de resultados do fim de outubro, que pretendem desembolsar pelo menos US$ 720 bilhões em despesas de capital (capex) apenas neste ano, com a maior parte destinada a infraestrutura de inteligência artificial. Sobre esse montante, recaem ainda pelo menos US$ 1 trilhão em compromissos de gastos já assumidos para os próximos anos.
A leitura publicada pelo The Verge em 5 de novembro de 2026 é direta: a expansão dos data centers de IA não está perto do fim e tampouco se aproximou do retorno prometido.
O volume assustou o mercado. Na semana anterior, as ações de tecnologia sofreram uma correção acentuada logo depois que os planos de investimento vieram a público, movimento que começou a arrefecer quando os investidores desviaram a atenção para as eleições de meio de mandato, realizadas na terça-feira.
O pleito, porém, acrescentou um elemento novo à equação: foram eleitos candidatos favoráveis a moratórias e a outras restrições à instalação de data centers, como mostrou a cobertura sobre a disputa. As ações de tecnologia voltaram a subir na terça, o que sugere que parte de Wall Street enxerga a incerteza regulatória com bons olhos.
Um orçamento sem precedentes
Os números das quatro empresas são a tradução financeira de uma aposta que já dura mais de três anos. Até recentemente, os investidores acompanharam sem grande sobressalto a escalada de gastos com a construção da infraestrutura de IA.
O quadro mudou: agora, o mercado começa a cobrar prazos e a perguntar quando, exatamente, o capital aplicado vai virar lucro. Em uma das teleconferências, o argumento foi resumido assim: seria mais conveniente se essa aceleração e essa oportunidade se desenrolassem ao longo de 25 anos, permitindo diluir o capex no mesmo período — mas esse não é o mundo em que as empresas vivem, e essa não é a oportunidade que têm em mãos.
Receita em alta, retorno em falta
O problema não é falta de crescimento na ponta da receita. A Amazon registrou, no trimestre, seu ritmo de expansão mais rápido em cinco anos; a Meta viu a receita de publicidade disparar; e o Google Cloud mais do que dobrou seu faturamento em um ano.
Ainda assim, o desempenho pode não ser suficiente para justificar os valores que estão sendo despejados em IA, e é essa a conta que começa a incomodar.
O caso mais desconfort ável é o da Alphabet. Philipp Schindler, vice-presidente sênior e chief business officer da empresa, reconheceu na teleconferência de resultados que o avanço do Google Cloud vem ocorrendo em detrimento do negócio central de busca.
Segundo ele, o forte crescimento das consultas no AI Mode teve impacto justamente pela monetização menor observada nesse formato. Os números confirmam o efeito: a receita de anúncios de busca do Google cresceu 12% no terceiro trimestre, bem abaixo dos 17% registrados no mesmo período do ano anterior.
O paradoxo do search
A situação é contraditória. Foi a solidez do Search que, durante anos, deu aos investidores confiança para endossar a agenda agressiva de investimentos em IA.
Agora, o novo buscador turbinado por inteligência artificial corrói o próprio negócio de busca antes que a companhia tenha encontrado uma forma consistente de monetizar o AI Mode. Schindler afirmou que a empresa se sente bem com a trajetória e que os experimentos publicitários têm mostrado resultados promissores, mas não apresentou exemplos concretos que sustentem a afirmação.
Quem vai parar a máquina
O terceiro elemento que emerge das calls é o mais espinhoso: as big techs não vão desacelerar por conta própria. A extensão do texto original aponta para essa direção ao tratar da disputa política em torno dos data centers e da pressão por responsabilização do setor, temas que ganharam força depois das eleições.
Restrições locais, moratórias e a exigência de contrapartidas podem alterar cronogramas e orçamentos, mas, até aqui, nenhuma das quatro empresas sinalizou intenção de recuar.
O que fica do trimestre é um descompasso: capital comprometido em escala histórica de um lado, monetização ainda incipiente do outro. Entre os US$ 720 bilhões do ano e o US$ 1 trilhão já contratado para os próximos exercícios, a pergunta que Wall Street passou a fazer em voz alta é quando o investimento em infraestrutura de IA deixará de ser promessa e começará a aparecer no resultado.
Pelos números apresentados até agora, a resposta continua em aberto.
Fontes e links
- The Verge
- Data centers lost the midterms
- The fight for tech accountability starts now
- Fall 2026 earnings watch







